Madrastas Modernas
Jovens namoradas de homens com filhos criam grupos para discutir relacionamento
Madalena Romeo
Espelho, espelho meu: existe alguém mais jovem, independente e descolada do que eu? Então, por que fui me apaixonar por um homem separado e com filhos? A complicada situação é cada vez mais comum. Para ajudar a resolver o enigma, as novas madrastas criaram fórum na Internet e até um clube, com direito a camisa, encontros e manual de direitos e deveres. Nas discussões virtuais e nas reuniões, desabafos e trocas de experiências sobre os relacionamentos, namorados, enteados e ex-mulheres.
A blusa preta com a inscrição “100% madrastas” chamou a atenção quando o grupo resolveu se conhecer pessoalmente e se reuniu pela primeira vez, num shopping em Botafogo, mês passado. O que era para ser só um almoço se tornou ótimo bate-papo, que foi até as 22h, quando o local fecha suas portas. “Foi muito bom conhecê-las pessoalmente. Ajuda a saber se realmente são sinceras”, conta a analista de sistemas Karla Angélica Patrício, 29 anos. Ela namora há dois anos Denilson de Pinho, 33, pai de Gabriel, de 6.
Tudo começou com o site www.madrasta.hpg.ig.com.br, criado pela arquiteta Roberta Palermo, 35 anos. Logo a sala de discussão recebia novas companheiras. Hoje, há quase mil participantes no Brasil e 167 madrastas modernas acessam a página freqüentemente. “A primeira reação delas é ficar feliz por terem encontrado mulheres com quem podem conversar sobre as mesmas dificuldades”, afirma Roberta.
Nenhuma das participantes pensou em namorar homem com kit completo – filhos e ex-mulher. Ainda mais tão cedo. A média de idade é de 23 anos. Elas deixam de lado as 1.001 possibilidades de namoros na faixa etária e arriscam mergulhar em relacionamentos que necessitam de compromisso.
Juntas, as jovens querem mudar a idéia de madrasta má de contos infantis. Desejam participar da vida do namorado com os enteados, ser aceitas pela família dele e não deixar a ex-mulher invadir o novo núcleo. “Queremos mostrar que é possível ser feliz, mesmo com todas as dificuldades que esse tipo de relação traz”, defende a produtora Mila Chaseliov, 22 anos.
“Hoje, as organizações familiares são mais complexas. Tanto madrastas jovens como as mais velhas precisam saber se adaptar”, ressalta o terapeuta familiar Moisés Groisman.
http://odia.ig.com.br/odia/geral/ge110701.htm
Livro deu origem a site na Internet
Roberta Palermo criou o fórum após escrever o livro Madrasta: Quando o Homem da Sua Vida Já Tem Filhos, da Editora Mercuryo. “Primeiro fiz o site. A quantidade de e-mails foi muito grande. Como apresentavam dúvidas parecidas, fiz o fórum”, conta. A idéia fez tanto sucesso que as participantes instituíram o Dia da Madrasta, comemorado no primeiro domingo de setembro. “É o dia para madrastas e enteados se curtirem mais um pouco”, diz Roberta.
A arquiteta é casada com o designer Márcio Palermo, 35. Quando os dois começaram a namorar, ele já tinha dois filhos – Lucas e Amanda, hoje com 13 e 10 anos. A família hoje é maior: há dois anos, nasceu Pedro. A chegada do novo bebê é, inclusive, o tema do próximo livro de Roberta.
O fórum, que é aberto também aos enteados, tem 280 acessos e 129 postagens (comentários) diários. Roberta costuma receber oito mensagens (e-mails) por semana de madrastas que entram pela primeira vez na página. A arquiteta – e mediadora – responde a todas.
http://odia.ig.com.br/odia/geral/ge110702.htm
Depoimentos:
‘Sou mais feliz’
“O maior problema da madrasta é a aceitação da família. Até a nossa custa a aceitar a relação. A gente costuma ser considerada intrusa. Queremos participar e eles não deixam. É doloroso não poder ir com o namorado para certos lugares. No fórum, consegui ser ouvida e compreendida. Principalmente quando a madrasta é jovem, todo mundo acha que foi ela quem complicou a vida, escolhendo o caminho mais difícil. O fórum me ensinou a ser mais paciente, tolerante e esperançosa. Agora, sou mais feliz.”
ELISA PEREZ, engenheira, 28 anos
‘Tive medo’
“Ninguém sonha ser madrasta. E não precisa casar para assumir esse papel. Tive medo. Muitas vezes, pensei em desistir. É difícil. Comecei no fórum de forma tímida. Fiquei desconfiada e só acessava o site para ler as discussões. Percebi que as participantes eram muito parecidas comigo. Em 15 dias, já estava postando (escrevendo). A gente se expõe e sempre tem alguém para dar uma luz. Fiquei mais segura: me ajudou a saber que estou no caminho certo.”
KELLY CRISTINA DE MENEZES, analista de sistemas, 24 anos
http://odia.ig.com.br/odia/geral/ge110703.htm
Desafio de lidar com as crianças
As principais dificuldades das madrastas modernas são o ciúme dos enteados e da antiga companheira, e a adaptação à nova família. As que não tiveram filhos ainda precisam aprender a ocupar posição de afeto e de autoridade, sem competir com a mãe das crianças. Quando não há equilíbrio, surge a insegurança e a angústia. “A madrasta não deve querer ocupar o lugar da mãe, que sempre será a mais querida”, alerta a psicóloga infantil da Uerj Lulli Milman.
O homem também é protagonista dos problemas que podem surgir. “Ele é cúmplice da situação. Geralmente, tem dificuldade de dissolução da família anterior. Muitas vezes continua saindo com os filhos e a ex-mulher juntos. Mas seu novo núcleo é constituído pela companheira e os enteados”, explica o terapeuta familiar Moisés Groisman.
http://odia.ig.com.br/odia/geral/ge110704.htm
Espaço também para os homens
Para se preservar, as participantes do fórum usam apelidos. Eles ajudam na hora de desabafar. “A acolhida e o carinho estimulam. Quando escrevemos coisas importantes, recebemos grande quantidade de conselhos e respostas de apoio”, acrescenta a técnica de informática Adriana Araújo, 22 anos.
Namorado de Kelly Cristina de Menezes, 24 anos, o engenheiro Fernando Luiz de Souza, 43, apóia a iniciativa do site. “Deu para notar que minha namorada ficou mais segura, até em relação à minha ex-mulher”, comenta ele, que tem dois filhos. Maridos e namorados não são apenas alvo das conversas virtuais. No mesmo endereço, há fórum exclusivo para a parte masculina dos relacionamentos. Mas eles não tricotam como as mulheres.
Roberta Palermo aconselha o homem a deixar claro que acabou a vida com a ex-mulher e chamar a nova companheira para participar de sua rotina familiar: “É fundamental ter maturidade, bom senso, se colocar no lugar do outro e ter certeza de que deseja esse relacionamento”.
http://odia.ig.com.br/odia/geral/ge110705.htm
O Estatuto
DIREITOS
Opinar no dia-a-dia da casa do companheiro
Incentivar o companheiro a ser presente na vida do enteado
Ser feliz com o companheiro
Exigir que o companheiro faça o divórcio
Dar carinho e amor ao seu enteado
Ser respeitada e ter seu relacionamento respeitado
Ter e expor opiniões
Ver o enteado no Dia da Madrasta
Ser apresentada ao enteado e à ex-mulher logo no início do relacionamento
Ter privacidade com seu companheiro
Ter seus próprios filhos
Passar datas comemorativas com o companheiro
Externar suas angústias
Querer se casar no civil e no religioso, quando possível
Acompanhar ou não o companheiro nos eventos com o enteado
Impor limites e regras
Opinar sobre o enteado morar com o casal
Ir aos lugares onde o companheiro ia com a ex-mulher sem ser incomodada
Dizer ao pai sua opinião sobre a educação do enteado quando moram juntos ou quando a guarda é compartilhada
Reclamar das atitudes e da educação do enteado
Sair sozinha com seu companheiro em fins de semana alternados
DEVERES
Respeitar e elogiar o enteado
Respeitar as opiniões da mãe do enteado
Nunca falar mal da mãe para o enteado
Tratar com educação a família do companheiro
Corrigir o enteado, desde que as regras tenham sido preestabelecidas
Cuidar do enteado quando estiver em sua companhia ou doente
Saber que se casou com um homem que vem com kit completo
Dar espaço para o companheiro e o enteado ficarem sozinhos
Verificar as amizades do enteado
Ensinar bons hábitos para o enteado
Alertar os pais sobre coisas mais sérias, como drogas, bebida e etc
Dar bons conselhos e boas orientações de conduta ao enteado
Ensinar o enteado a valorizar a vida e ser feliz
http://odia.ig.com.br/odia/geral/ge110706.htm